quinta-feira, 12 de setembro de 2013
A festa
A festa era no segundo esquerdo do último prédio também à esquerda da rua, em casa da Cinda e da Nuzka. Encharquei-me em after-shave Vert Sauvage do meu pai. Não sei se pela natureza ou pelo excesso, o cheiro intenso invadiu-me em tontura, uma espécie de alucinação a que teimei em dar continuação, olhando-me ao espelho, mais um pouco de gel, espelho, passando os dedos para um ar desgrenhado, vestindo um polo azul, depois preto, não, azul, finalmente branco, três botões apertados, calças de ganga azuis com dobras nos tornozelos e all-star vermelhos – look new-age, assim à moda dos Joy Division, Smiths ou dos Cure. Conveniente preparado, de modas e pequenos e castanhos facilitadores de alegria, desci ao encontro do Elvis e do Jonas. E, espanto dos espantos, ambos usavam polos brancos e calças de ganga com dobras nos tornozelos. Apenas diferia a cor dos all-star, pretos do Jonas, brancos do Elvis. Creio que todos nos sentimos orgulhosos desta coincidência, embora tentássemos, por pouco tempo e sem convicção, convencer os outros a mudar qualquer coisa no visual. Ninguém se incomodou a subir a casa e alterar uma peça que fosse. Assim, chegámos à festa como aqueles filhos dos betos que víamos no centro comercial, todos iguais, mesmos cabelos à tigela, polo, calções azuis-escuros compridos com bolsos de lado e sapatos de vela, e dirigimo-nos para o quarto do lado direito, que na verdade era a sala de estar. Nesse dia, porém, estava transformada em pista de dança, bola-de-espelhos e tudo, e em bar. Creio que fomos os últimos a chegar, fruto de duas pausas, óleo e tabaco dissolvidos em fumo, confusão, risos e filosofias, finalmente em paz feita de torpor. O Elvis segurou a mesa das bebidas até ao final, ou pelo menos até ao seu final, agarrado à sanita a expelir um líquido espesso e acastanhado. O Jonas perdi-o depois da minha primeira dança, quase instantânea, com a linda hippie de Moscavide. Já a tinha vista por uma vez, de passagem, e assim que entrei convidou-me para dançar. Antes do fim da primeira música, sem sequer termos trocado uma palavra, beijámo-nos, como se sempre soubéssemos o que ali fazíamos, aceitando sem luta o destino. E a sala toda em espanto observou-nos e nós no centro do mundo dançámos acorrentados um ao outro pelos lábios. Até que a festa abruptamente terminou. Perdi-lhe o rasto, até o nome, mas guardo na memória a sua imagem, os cabelos longos pelas costas, os olhos claros e os óculos redondos. E embora não me tivesse parecido, eu e ela fomos quem se portou pior na festa segundo o irmão da Cinda e da Nuzka, opinião cheia de ciúmes, pensei.
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