Não vejo os jogos do Benfica. Às vezes
estou lá, por dentro, carne e coração envolvidos por um só grito, um
rumor crescente de carinho, outras em casa prostrado em frente à
televisão e em nenhuma destas ocasiões vejo o jogo. Mas em ambas olho e
até me finjo entendido nas movimentações, mestre nas alterações
tácticas, vidente de simulações e substituições e julgo respirar. Toda a
atenção que dedico, humilde e voluntária, subtrai-me e diminui-me até,
já de rastos, ver o jogo terminado. E mesmo então, acariciado com o leve
calor da vitória ou violentado pela chuva ácida da derrota, tento
resumir e saem-me palavras em branco. Como se desejasse, e ah como o
desejo, que toda a vida ali decorresse - noventa minutos sobre noventa
minutos, e eu extasiado e confuso, profundamente deprimido e no segundo
seguinte ardente de alegria, entre o pânico, a frustração e a sublimação
- por forma a um dia, mais adulto de emoções, poder então explicar como
foi o jogo. Como foi o jogo? Ah, soubessem eles, tivessem eles esta
cegueira de amor incondicional e não me questionariam. Não entendem que
toda a ilusão que dispenso, a força dos nervos e dos músculos, a função
das veias e dos poros, todos os ossos, se destinam apenas a esses
noventa minutos e que durante esse hiato, parado, imune, imortal, não
retenho memórias porque não tenho medo do futuro.
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