quinta-feira, 9 de janeiro de 2014


Cresce e (não) aparece.

Por motivos absolutamente desnecessários – na medida em que a doença é a mais inútil e estúpida invenção humana – fiquei retido no passado fim-de-semana em casa. A gripe pode, ainda assim, ser linda, desde que nos ofereça o seu beijo nas alturas devidas. Desta vez, foi tragicamente inoportuna. E impediu-me de cumprir uma promessa. Acordei cheio de dores no corpo no Domingo, tive uma noite incerta de frios e sobressaltos. Nem me lembro se tomei o pequeno-almoço, apenas de tombar no sofá, ligar a televisão, ver imagens do Eusébio e perceber. Qual vampiro suguei tudo o que pude em zapping frenético, e em segredo verti várias lágrimas redentoras enquanto permanentes arrepios de saudade se espalhavam pelo corpo. A princesa percebeu e tolerou o meu silêncio, as minhas lágrimas, a minha perda. Ficar-lhe-ei eternamente grato por isso. Não convivi com Eusébio, apenas me cruzei com ele em aeroportos aquando de deslocações europeias do Benfica. Numa dessas vezes, retidos numa porta de embarque por atraso do voo, pedi-lhe um autógrafo, mas a caneta traiu-me. Reagiu mal o Pantera “então pedes-me um autógrafo e não tens caneta?”. Não desisti, consegui uma caneta emprestada e voltei. A custo presenteou-me o autógrafo. Pediram-me desculpa por ele, como se fosse preciso. Esse dia confirmou apenas o que sempre pensei – os ídolos não se devem conhecer pessoalmente, devem estar sempre acima, lá bem em cima. É muito injusto termos de ficar a saber que podem ser frágeis, angustiados, humanos. No Domingo dois amigos disseram-me ao telefone “nunca fiquei assim por causa da morte de uma pessoa que não conheço”. Percebi o que queriam dizer. Somos, os das nossas gerações, filhos dos amores entre uma ideia “Benfica” e uma divindade “Eusébio” e tememos a orfandade. E pressinto que nos sentiremos eternamente sozinhos, mesmo no meio de rubras multidões em dias de procissão, sentir-nos-emos abandonados e traídos. Neste ponto, também para “aligeirar”, seria talvez agradável explicar o título desta suave expiação, por contraponto à crescente vontade de rasgar-me em gritos e impropérios contra a desfaçatez da lenda – devia saber que não podia ter morrido. O facto de estar a tomar antibióticos e não beber álcool desde sexta-feira também não me ajuda a extravasar como necessito. Bem, voltemos ao título, sei que a única leitora deste blog, que por acaso é linda de morrer e a pessoa mais inteligente e doce que conheço, está curiosa. Há nestas ocasiões muito mediáticas, especialmente quando envolvem a morte, interessantes dados para estudos sociológicos. Não há necessidade de a querida leitora se alarmar, não tenho disponibilidade e sobretudo conhecimento para realizar tais – espaço para procurar no Google um sinónimo de estudo – ensaios (gosto da palavra). Cedo foram chegando profissionais da piscadela ao ecrã, especialistas do comentário breve, para prestarem homenagem ao King. Não tenho a pretensão de julgar a honestidade e espontaneidade de tais gestos. Aliás, confesso que só a atrás referida malfadada gripe me impediu de os acompanhar. Mas fico triste com certas encenações, teatrinhos de chico-espertices que fatalmente aparecem nestas alturas. E dos quais – repito - apenas não fiz parte por motivos alheios à vontade. Sim, tive todas as ganas de chorar em directo, de falar da “boa pessoa, espectacular pessoa, simples, honesta, humilde”, mesmo não a tendo conhecido e sabendo das fragilidades de todos os humanos. E de mais tarde, talvez num dos derradeiros jantares de amigos ou no ocaso entre família poder dizer “eu estive lá”. É esta transformação da dor alheia em crédito pessoal que me choca. A mim, que a primeira coisa que fiz foi procurar o tal livro com o autógrafo do Rei. Ou lembrar a sessão de cinema no São Jorge do passado mês de Março. Estava com a princesa a aguardar o início do documentário sobre o trágico acidente aéreo que vitimou toda a equipa do Torino após deslocação a Lisboa para um jogo amigável com o Benfica, quando toda a sala se levantou e ovacionou a entrada de Eusébio. Senti um daqueles inexplicáveis arrepios, maiores que mil palavras ou honras, que nunca esquecerei. E partilhei a saudação, dei-a e recebi-a por e com ele. Nestes últimos dias vi imagens e ouvi palavras lindas, mas não deixo de lamentar o aproveitamento mediático, até de amigos, “ah e tal, eu é que soube primeiro da notícia, ah e tal, eu é que….”. Não havia necessidade. Temos de crescer enquanto sociedade e (não) aparecer sempre que nos põem “cenouras” à frente. E deixar de invejar o mérito – mas este é outro assunto. No final do dia, a melhor frase que escutei foi a do Padre Vítor Melícias “Honra e Glória para Eusébio”. Honra e glória!

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